segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Comer, Rezar, Amar 

"Minha mãe fez escolhas na vida, como todos nós precisamos fazer, e está em paz com elas. Posso ver a sua paz. Ela não julgou a si mesma. Os benefícios das suas escolhas são enormes - um casamento duradouro e estável com um homem a quem ela ainda chama de melhor amigo; uma família que agora inclui netos que a adoram; a certeza de sua própria força. Talvez algumas coisas tenham sido sacrificadas, e meu pai também fez lá os seus sacrifícios - mas qual de nós vive sem sacrifício?
E, agora, a pergunta para mim é: Quais serão as minhas escolhas? O que eu acho que mereço nesta vida? Onde posso aceitar fazer sacrifícios, e onde isso não será possível? Tem sido muito difícil para mim imaginar a vida sem David. Tem sido difícil até imaginar que nunca haverá nenhuma outra viagem de carro com meu companheiro de viagem preferido, que nunca mais vou encostar no meio-fio em frente à casa dele com as janelas abertas e Bruce Springsteen tocando no rádio, um estoque imenso de papo-furado e besteiras para comer em cima do banco, e infinitos destinos despontando na auto-estrada. Mas como posso aceitar essa felicidade, quando ela vem acompanhada de um lado tão sombrio - um isolamento acachapante, uma insegurança corrosiva, um ressentimento insidioso e, é claro, a completa desintegração do meu ser que inevitavelmente acontece quando David pára de dar e começa a levar embora. Não consigo mais fazer isso. Alguma coisa em minha recente felicidade napolitana me fez ter certeza de que não apenas eu posso encontrar a felicidade sem David, mas que eu preciso fazer isso. Por mais que eu o ame (e eu o amo de verdade, de forma estupidamente excessiva), preciso dizer adeus a essa pessoa agora. E preciso me manter fiel a essa decisão.
Então escrevo um e-mail para ele.
Estamos em novembro. Não nos falamos desde julho. Eu lhe pedira para não entrar em contato comigo enquanto eu estivesse fora, sabendo que meu apego a ele era tão forte que seria impossível me concentrar na viagem se também estivesse acompanhando o que ele estava fazendo. Mas agora, com esse e-mail, estou entrando de novo na sua vida.
Eu lhe digo que espero que ele esteja bem e que estou bem. Faço algumas brincadeiras. Sempre fomos bons de brincadeiras. Em seguida, explico que acho que precisamos pôr um ponto final nesse relacionamento. Que talvez seja hora de reconhecer que nunca vai dar certo, que não é para dar certo. O tom não é excessivamente dramático. Deus sabe que já houve drama suficiente entre nós. A mensagem é curta e simples. Mas há mais uma coisa que preciso acrescentar. Prendendo a respiração, escrevo: "Se você quiser procurar outra pessoa na sua vida, é claro que eu lhe desejo tudo de bom." Minhas mãos estão tremendo. Assino com "um beijo", tentando manter o tom mais descontraído possível.
Tenho a sensação de que alguém acaba de golpear meu peito com um bastão.
Não durmo muito nessa noite, imaginando-o a ler minhas palavras. Durante o dia seguinte, corro algumas vezes até o cybercafé à procura de uma resposta. Estou tentando ignorar aquela parte de mim morta de vontade de que ele responda: "VOLTE! NÃO VÁ EMBORA! EU VOU MUDAR!" Estou tentando ignorar a menininha dentro de mim que abriria mão alegremente de toda essa idéia grandiosa de viajar pelo mundo em troca apenas das chaves do apartamento de David. Mas, por volta das dez horas da noite, finalmente recebo minha resposta. Um e-mail maravilhoso, é claro. David sempre escreveu lindamente. Ele concorda que, sim, é hora de finalmente dizermos adeus para sempre. Diz que ele próprio vem pensando mais ou menos a mesma coisa. Não poderia ter sido mais gentil em sua resposta, e compartilha seus próprios sentimentos de perda e arrependimento com aquele imenso afeto que algumas vezes ele era tão comoventemente capaz de atingir. Ele espera que eu saiba o quanto ele me adora, e que não consegue sequer encontrar palavras para expressar isso." Mas a gente não é o que o outro precisa", diz ele. No entanto, ele tem certeza de que eu algum dia vou encontrar um grande amor na minha vida. Ele tem certeza disso. Afinal, ele diz, beleza atrai beleza".
E isso, de fato, é uma coisa muito linda de se dizer. E é praticamente a melhor coisa que o amor da sua vida poderia dizer, quando não está dizendo: "VOLTE! NÁO VÁ EMBORA! EU VOU MUDAR!"
Fico ali sentada encarando a tela do computador, sem dizer nada, durante um tempo longo e triste. É melhor assim, eu sei que é. Estou escolhendo a felicidade em lugar do sofrimento, eu sei que estou. Estou criando espaço para o futuro desconhecido encher minha vida com surpresas que ainda estão por vir. Eu sei tudo isso. Mas mesmo assim..."

Marcella Cristina às 8/23/2010 12:56:00 AM
manda um beijo pra mim: beijos


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